Publicado por: Toddy | Agosto 1, 2008

Vale a pena adaptar?

Cinema. A sopa reformulada de tudo o que há de melhor nas artes que o antecedem. O encontro casual entre coreografia, fotografia, literatura e música. A mais grandiosa síntese da expressão humana. A arte suprema.

Muitos são capazes de classificar o cinema como uma arte versátil. Até certo ponto, isto é verdade. No entanto, há um consentimento mútuo de que filmes verdadeiramente artísticos são uma mínima parcela daquilo que se entende por cinema hoje em dia. Atualmente, longa metragens tornaram-se sinônimos de campanhas publicitárias cuja prioridade é o lucro, execrando o pouco de aproveitável que resta dos sonsos roteiros da nova geração.

Resignados com o fato, nos damos conta que o honroso título de “Sétima Arte” serve apenas como manto para encobrir a verdadeira faceta do cinema: a comercialização.

Uma breve história de Hollywood

Por volta da metade dos anos 20, a humanidade se encantava com o primor da montagem cinematográfica – uma simples sucessão de quadros e cenas cuidadosamente planejados e posicionados -, que proporcionava ao então leiguíssimo espectador emoções e aflições nunca antes sentidas. Com este artifício em mãos, investidores financiavam a construção daquilo que viria a se chamar indústria do cinema – um conglomerado de artistas, técnicos e especialistas reunidos com o propósito de dar início a uma verdadeira linha de produção fílmica. Bastava um time competente de atores, atrizes, figurantes, alfaiates, cenógrafos, figurinistas, coreógrafos, músicos, técnicos em som, técnicos em iluminação, fotógrafos, montadores, roteiristas, diretores, uma senhora infra-estrutura e – ufa! – um punhado generoso de dinheiro que tínhamos aí um filme pronto para conquistar e emocionar platéias alheias. A seu modo, o cinema deixava a lógica artística em segundo plano para adquirir como absoluto propósito a venda, e desta forma, tomar o posto do teatro como a mais imponente – e lucrativa – das artes.

Ainda que assumir um propósito comercial não fosse nada louvável, foi somente deste ponto em diante que o cinema realmente decolou. Menos de uma década depois, em meados dos anos 30, Hollywood desfrutava o auge de seu glamour – fase posteriormente denominada de Golden Age -, período em que os grandes estúdios desovavam aproximadamente um longa-metragem por dia (!). Filmes como Marrocos (1930) e Aconteceu Naquela Noite (1934) davam aos então desconhecidos Gary Cooper e Clark Gable a aura de eternos galãs – sem contar, é claro, a fama e a fortuna – e estabeleciam o rosto caucasiano de Marlene Dietrich e a cintura magérrima de Claudette Colbert como padrões mundiais de beleza física. O mundo contemplava o nascimento das grandes estrelas do cinema, e com elas, a proliferação de fãs por todo o globo.

Dietrich: padrão de beleza

E o vento trouxe…

Fascinado com a rentabilidade deste novo tipo de arte (leia-se: instrumento de alienação em massa), o ambicioso produtor David Selznick, em parceria com a gigante MGM, financiou a adaptação de um livro cuja magnitude épica exigia uma verba orçamentária tão grandiosa quanto a dimensão da obra: E o Vento Levou, de Margareth Mitchell. O filme foi produzido numa época em que era moda financiar adaptações de famosas obras literárias. Simples: pegue um livro de grande êxito comercial e transforme-o em filme. Sucesso garantido.

E o Vento Levou: a primeira superprodução Hollywoodiana

Para a produção de Vento, foram convocados cerca de 1000 figurantes para as cenas em locações abertas, além da contratação de um verdadeiro batalhão de técnicos e artistas para a construção das centenas de sets de filmagem.

O filme estreou nos cinemas em 1939 e quebrou todos os recordes de bilheteria.

Nenhum dos transtornos da produção impediu o sucesso do filme, que foi regido por cinco diretores (sendo que um deles, Victor Fleming, sofreu um colapso nervoso durante as gravações devido a divergências criativas), teve suas filmagens interrompidas ao menos três vezes e custou mais de 5 milhões de dólares aos cofres do estúdio, quantia considerada astronômica para a época.

Quatro anos depois, os lucros obtidos com a bilheteria já eram seis vezes maiores que o valor gasto com a produção. Foi a primeira vez em que grandes estúdios enxergaram o potencial das adaptações.

Adaptação, o termo da vez.

Qual é o fascínio em adaptar obras ao cinema? E o Vento Levou, Ben-Hur, O Poderoso Chefão, O Senhor dos Anéis e Harry Potter… Grandes adaptações que conquistaram o público e crítica, arrebaram prêmios e quebraram recordes de bilheteria. Apesar de todos serem impecáveis no que diz respeito a coesão narrativa, nenhum deles é 100% fiel à obra original. É claro, fidelidade aqui é uma palavra dúbia, já que seria impossível transpor integralmente as incontáveis páginas de um livro às telas.

Em 1970, quando primeiro se cogitou a adaptação cinematográfica de O Senhor dos Anéis, por exemplo, afirmava-se que seria impossível transpô-lo em um filme. O enredo era muito longo. O mundo, vasto demais. Filme nenhum suportaria tamanha dimensão.

Décadas depois, provou-se o contrário: a versão cinematográfica de O Senhor dos Anéis não só foi um êxito em bilheteria, como também é reconhecida por críticos como a maior e mais impressionante saga já filmada. Peter Jackson, o subestimável diretor da franquia, foi capaz de convencer inclusive os detentores dos direitos de adaptação do livro – até então irredutíveis à proposta – de que era possível, sim, tornar o epopéico-inadaptável-e-intransponível O Senhor dos Anéis um filme. Jackson estava certíssimo.

Fãs mais xiitas afirmam que o diretor mudou o rumo de alguns atos, minimizou passagens essenciais e relevou outras de menor importância. Ora, mudanças são necessárias. Não esperem que uma adaptação transponha cada palavra, frase ou capítulo por inteiro. Apesar dos gêneros livro e filme conterem começo, meio e fim, ambos são diferentes na condução narrativa. Se no primeiro são necessárias as descrições do ambiente, a divisão por capítulos e a narração onisciente, no segundo a descrição é dispensada pela produção cenográfica, as mudanças são ditadas pelos cortes e o entendimento narrativo é comandado pelo próprio espectador. São virtudes distintas. Se num dado aspecto algo se perderá, em outro certamente se ganhará.

Analisemos o Poderoso Chefão (1972), adaptação do livro homônimo. O filme, indiscutivelmente impecável, superou todas as expectativas e tornou-se uma das mais refinadas obras do cinema. O diretor Francis Ford Coppola foi hábil em omitir pontos não muito claros do livro e tornar certas passagens-chave antológicas na versão filmada. Mario Puzo, escritor da obra original, gostou tanto do filme que se propôs a escrever o roteiro de uma eventual continuação. Dito e feito: dois anos depois, Puzo roteiriza e lança O Poderoso Chefão: Parte II (1974), a única sequência a ganhar o Oscar de Melhor Filme, tal qual seu antecessor (lembrando que a continuação da história só existe na versão cinematográfica).

O Poderoso Chefão: obra-prima

Feliz ou infelizmente, nem todos são entusiastas da opinião. Stephen King, famoso escritor de thrillers como Carrie, a Estranha e Na Hora da Zona Morta (ambos adaptados para o cinema), declarou ter odiado a versão cinematográfica de O Iluminado. O filme, dirigido por Stanley Kubrick em 1980, cria uma abordagem ainda mais macabra da história e conclui de forma diferente o destino do personagem central. King prometeu que comandaria uma adaptação mais fiel de sua obra, e dezessete anos depois, lançou a minissérie de O Iluminado – um verdadeiro fiasco de crítica e público. E público! Nem os fãs mais fervorosos gostaram. Foi uma das primeiras vezes em que os críticos de plantão se deram conta de que simplesmente transpor as passagens de um livro para um filme não basta para que este funcione. É preciso mais.

Faltou carisma ao Iluminado de King

Cinema destrói a imaginação”

“Cinema destrói a imaginação”. Assim José Saramago designou a Sétima Arte. Em se tratando de um autor pós-moderno, fascinado por períodos longos, frases virguladas e descrições pra lá de detalhadas, a afirmação é bastante válida. É um fato inegável; filme nenhum exige tanto da imaginação quanto um livro, que se limita a “mera” descrição daquilo que se propõe contar, apostando somente na capacidade interpretativa do leitor. Num filme, a coisa é outra: a informação já vem embalada e pronta para ser tragada pelos confins dos nossos inconscientes.

O próprio Saramago, no entanto, admite ter se equivocado ao afirmar com tamanha aspereza o dito defeito do cinema. Ao assistir Cegueira, primeira adaptação de uma de suas mais célebres obras – Ensaio sobre a Cegueira -, Saramago afirmou sentir-se tão feliz quanto estava no momento em que finalizou seu livro.

Saramago e Miller: desertores

Frank Miller passou pelo mesmo questionamento ao assistir uma das cenas da adaptação de sua Graphic Novel Noir, Sin City. Por muitos anos, Miller negou que fosse possível adaptar com fidelidade qualquer uma de sua obras – em especial Sin City, que abusa de um contraste chapado e de um traço deliberadamente estilizado. O filme, como sabem os nerds bem-informados, é uma das mais fiéis adaptações de quadrinhos já realizadas, transpondo cada fala, trecho e quadro para as telas. A propósito, adaptação não é um termo que cabe aqui. O filme de Sin City é uma história em quadrinhos. Absolutamente tudo – TUDO – na obra original é analisada e repassada ao mundo tridimensional. O próprio Miller assumiu a co-direção ao lado de Robert Rodriguez, fã declarado do artista.

Sin City: fidelidade ao máximo

Com raras exceções, adaptações de quadrinhos tendem a sofrer as mudanças mais drásticas em relação a obra original. Isto se deve ao fato do cinema exigir uma abordagem mais realista, em contrapartida ao colorido e fantástico mundo dos quadrinhos. E Chris Claremont é um dos primeiros a reconhecer isto. Ao ser consultado para a adaptação de X-Men nos cinemas, o roteirista afirmou que há coisas que funcionam muito bem nos quadrinhos, mas que simplesmente pareceriam cafonas se postos num longa-metragem. Colante amarelo? Isso fica bem bacana num desenho… Mas colocá-lo num ator de carne osso, IUGH! É muitíssimo brega.

Colante amarelo? Nem pensar…

O veredito de Moore

Alan Moore é um dos mais importantes nomes da Nona Arte. O inglês foi responsável por obras como V de Vingança, Do Inferno, A Liga Extraordinária e Watchmen, além de reviver personagens falidos como o Monstro do Pântano e contribuir para que Batman perdesse o estigma cômico do seriado sessentista com A Piada Mortal.

Moore é categórico ao afirmar que o cinema nada tem a ver com quadrinhos. Pagou para ter seu nome apagado dos créditos da última adaptação de sua obra – V de Vingança – e declarou que não vai sequer ver o trailer de Watchmen, filme previsto para maio de 2009.

O guru inglês Alan Moore

Radicalismo degenerado? Talvez. Mas dê um desconto pro cara. As duas primeiras adaptações de seus quadrinhos – Do Inferno e A Liga Extraordinária – foram péssimas. O primeiro em nada remete ao seu magnífico suspense vitoriano, enquanto o segundo aproveita muito mal a genial idéia de reunir todos os maiores heróis da literatura inglesa. Qualquer autor se sentiria frustrado.

O repúdio a toda e qualquer adaptação de suas obras, no entanto, me parece pura arrogância da parte do escritor. V de Vingança, por exemplo, sintetizou com êxito o enredo da obra original, condensando – e modernizando – o argumento de Moore. É triste constatar sua falta de interesse. Para nós, fãs, não resta nada senão a resignação.

Inadaptável?

Terry Gilliam certa vez cogitou adaptar Watchmen para as telas. Empolgado com a idéia, levou tudo o que havia preparado para a mesa de Moore, que disse: “desista da idéia. Watchmen é inadaptável”. Gilliam recolheu seus papéis e voltou cabisbaixo para casa. Em entrevista, o autor afirmou que há fatores cruciais na narrativa de Watchmen que funcionam única e exclusivamente na linguagem dos quadrinhos, e seria impossível transpô-las num filme. Será mesmo? Miller e Saramago foram defensores desta idéia, mas logo desistiram assim que perceberam que, com afinco e paixão, qualquer coisa é adaptável.

Em 2007, Zack Snyder reassumiu o projeto de adaptar Watchmen às telas (poucos anos depois de dois cineastas – Darren Aronofsky e Paul Greengrass – desistirem da idéia). Apesar do fanatismo pela obra, o apreço de Snyder pelas tomadas em câmera lenta e o uso não-convencional da música (que funcionavam muito bem no contexto de 300, longa em que provou sua competência) geram polêmica entre os fãs e críticos. Assim que divulgado o trailer, os fãs fervorosos (como eu) constataram que o filme está em boas mãos. O Doutor Manhattan em carne e osso, a Nave Coruja submergindo, o castelo fractal em Marte e a revolta do povo… Tudo muito condizente à obra original. Mas pera lá… Smashing Pumpkins como trilha sonora do trailer? MEDO ABSOLUTO. Isso definitivamente não combina com Watchmen. Mas é claro que isto é mera opinião. Nada de conclusões antecipadas. Só saberemos se o filme é bom mesmo quando ele estreiar.

Dr. Manhattan nos quadrinhos e no filme

E agora José?

Uma coisa é trivial: a linguagem do cinema permite um aumento exponencial das emoções e da sensação movimento, e por este motivo, muito se ganha numa adaptação. O ambiente descrito (ou desenhado), quando inserido numa realidade tátil – como a dos filmes -, gera um ponto de vista diferente do original, que em muitas vezes beneficia a compreensão da idéia que se queira passar pela obra. O cinema se limita à respeitar a visão do autor, e em alguns casos, melhorá-la. Tudo é adaptável, bastando o competência de seus realizadores.

Obs.: Homero certamente não teria gostado de Brad Pitt como Aquiles…


Respostas

  1. Ce coloca a marlene logo no começo e eu não consigo prestar atenção ao resto do post u.u

  2. Texto fantástico!

  3. Texto fantástico, mesmo. Já virei fã do blog só pelo ótimo conteúdo dos textos e seus assuntos interessantíssimos, sempre muito bem escritos.

    Continuem assim! =D

  4. Stephen King é simplesmente ‘esfaqueado’ a cada vez que adaptam seus livros para as telas. Ainda que Iluminado fora um filme de excelente atuação de Nicholson, não tem um resumo da história!

    é por isso tbm que Do inferno, de Moore, é muito mais rico e até ‘colorido’ na mente de quem lê.

    Não troco meus livros por um dvd.

    bjz


Deixe uma resposta

Sua resposta:

Categorias